Cut City Workshop Estúdio 11_ fotoarch

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

André Duarte Baptista - fragmentação social

http://lerbd.blogspot.com/2011_09_01_archive.html


http://kiwicommons.com/index.php?p=7614&tag=facebook-reboots-its-privacy-settings-part-2


http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=3778582932782608726

http://www.castelhana.pt/imoveis/show.aspx?idcont=28&title=apartamento-t1&idioma=pt

http://omeusofaamarelo.blogspot.com/2011_07_01_archive.html
Publicada por André Duarte Baptista à(s) 06:54
Enviar a mensagem por emailDê a sua opinião!Partilhar no XPartilhar no FacebookPartilhar no Pinterest

Sem comentários:

Enviar um comentário

Mensagem mais recente Mensagem antiga Página inicial
Subscrever: Enviar feedback (Atom)

CUT CITY workshop estúdio 11

CUT IMAGE |CUT CITY - Workshop de fotografia e arquitectura

Propõe-se neste Workshop que os alunos façam uma reflexão sobre o tema “CUT CITY- Connecting the City” usando imagens fotográficas captadas pelos próprios.

A captação das imagens obrigará cada aluno a um olhar atento e activo sobre a cidade. Serão dados vários temas e exercícios concretos a que os alunos terão que responder de forma criativa e critica tendo em conta o olhar fotográfico ou seja a captação de fragmentos (imagens) que se “cortam” do contexto urbano.

Portadoras de conceitos estas imagens serão debatidas e relacionadas de forma a construir dois painéis: Análise e Proposta. Pretende-se que a avaliação e comparação dos mesmo nos obrigue a uma reflexão sobre o “poder das imagens”; respectivamente o poder da “evocação” e o poder da “metamorfose” - poderosas ferramenta da “concepção arquitectónica “.

Isabel Barbas

Professores Responsáveis

Isabel Barbas, MsC, Arq
Pedro Ressano Garcia, PhD, Arq
José Gomes Pinto, PhD, Arq

Home Trailer

  • http://www.youtube.com/watch?v=dRYzINrg6B4

'It's called Home, but it becomes hell'

http://www.youtube.com/watch?v=RRdMNVHnN3Y

Arquivo do blogue

  • ▼  2012 (100)
    • ►  março (59)
    • ▼  fevereiro (41)
      • La Haine
      • Invisível Perto
      • No outro lado da linha.
      • Alta tensão
      • Trabalhos em Sala - Flávio Filho
      • Referencias de Fotomontagens - BenHeine
      • Referencias de Fotomontagens - André Boto
      • Cut city - Uma primeira abordagem
      • Fragmentos na cidade - Ana Neixa
      • Acerca da Palestra da Artista Plástica SUSANA GAUD...
      • Acerca da Palestra do Artista Plástico ORLANDO FRANCO
      • André Duarte Baptista
      • | CUT |
      • ESTUDIO11
      • SLID SHOW
      • André Duarte Baptista - fragmentação social
      • Nascente
      • Fragmentos na área de intervenção. Francisco Moreira
      • Ricos E Pobres (Levi Maria)
      • Sem título
      • La Zona
      • Amnésia
      • Contrastes num percurso. Sofia Laia
      • Ponte para um não lugar? Catarina Farmhouse
      • cut city
      • O não lugar falado no debate de hoje_Ana Sofia Alm...
      • Espaço Lixo por Catarina Farmhouse
      • primeira abordagem a cut city
      • fotos cut city
      • Cortes na Cidade de Lisboa
      • Olhares - Cais do Sodré até Alcântara
      • Cut City
      • CIDADE PÓSMODERNA. ESPAÇO FRAGMENTADO_ Teresa Bara...
      • Apresentação 26 de Fevereiro
      • Miguel Cruz_Cut City
      •  Portaria fotografia pedro freitas
      • Contribuições - Flávio Filho
      • As imagens apresentadas ontem, onde se via o "cort...
      • Um exemplo de Terrain Vague existente na "Cut City"
      • cut city
      • FOTOGRAFIA E ARQUITECTURA

Contribuidores

  • Adriana
  • Ana Caetano
  • Ana Neixa
  • Ana Sofia Almeida
  • Catarina Farmhouse
  • Cidade Fragmentada Cut City
  • Cláudia Mendes
  • DIGITALMALFUNKTION
  • Danielll
  • Dulce Alexandre
  • Flavio Filho
  • Francisco Moreira
  • Gomes Pinto
  • Levi Maria
  • Luísa ULHT
  • Marta
  • Miguel Cruz
  • Pedro Freitas
  • Sara Pereira
  • Sofia Laia
  • TatianaRomão
  • Um lar, uma vida
  • ad1000son
  • danilo.olim@gmail.com
  • isabel barbas

Seguidores

cidade fragmentada

CIDADE PÓSMODERNA. ESPAÇO FRAGMENTADO_ Teresa Barata Salgueiro_ Dep. Geografia da Faculdade de Letras da Unniversidade de Lisboa

http://www.apgeo.pt/files/section44/1257763321_INFORGEO_12_13_P225a236.pdf

textos | entrevistas

ARTIGOS SOBRE FOTOGRAFIA E ARQUITECTURA


A arquitectura da fotografia por Manuel Graça Dias

Teve que passar bastante tempo, depois de 1839 e dos primeiros daguerreotipos que reproduziam "quadros" postos à frente do fotógrafo (para alegria e espanto sobretudo daqueles que sempre tinham, secreta e miticamente, ambicionado poder um dia ficar fixados numa tela através do "génio" de um artista pintor), para que a fotografia ganhasse um estatuto próprio, como se sabe.

Se para a pintura foi fundamental essa data -- para se poder começar a desvincular da obrigação de "reproduzir" o real, para se poder dedicar ao que sempre verdadeiramente lhe interessara (o recorte, os contrastes, a luz, a sombra, o despertar da cor ou o seu súbito desvanecimento, tomando como base troços visualizados do mundo real, mas também outras imagens: inventadas, sonhadas, derivadas ou irreconhecíveis) --, para a própria fotografia terá parecido muito pouco provável a saída imediata desse inicial universo de figuração e de composição em espelho, a devolver, simbólico, a quem se desejava ver retratado.

No entanto, ganha a "objectividade" da devolução da imagem, sobrava ainda o subjectivo "olhar" aberto através do quadrado onde batia a luz, nas costas do fole das câmaras fotográficas. O sublime da arte foi descoberto quando se compreendeu o encanto de re-olhar o que já conhecíamos, deixando "em fundo" garantido o "documento" e trazendo "para a frente", a espécie de renovação rectangular que, simultaneamente, o isolava do mundo e do contexto.

[As "câmaras mentem tanto", diz-nos Bill Watterson através da boca de Calvin ("Calvin & Hobbes", Público, 15 de Outubro de 2002)].

A fotografia "documental" passou a existir (daí o seu encanto) neste estreito esmagamento temporal, entre a felicidade do acontecimento, do ambiente ou da acção a reproduzir e o vislumbrado novo modo de os "enquadrar" (com a assistência da "técnica", que permitirá a melhor abertura face à luz, o melhor "foco", a melhor profundidade de campo).

A "Fotografia de Arquitectura" inserindo-se nesta categoria, obrigará, ainda, suplementarmente, a um enorme rigor em qualquer dos níveis considerados.

Exigir-se-lhe-á, primeiro, que nos devolva a compreensão do espaço retratado. Tarefa impossível, porquanto o espaço e as suas múltiplas dimensões não se deixam "prender" na bidimensionalidade da convergência perspéctica da reprodução fotográfica; mas uma "aproximação", uma "aproximação" que nos acorde as memórias de outras experiências e que nos sugestione o tipo de espaço, as preocupações do autor, o que sentiu o fotógrafo que o habitou antes de no-lo tentar devolver e à pesada leveza do que o envolve.

Quanto tempo (dias) aguardará pelo sol? Aquele sol -- daquele dia -- as sombras que provoca? Não para "falsear" na revelação a sua estadia, mas porque sentiu caracterizador (e então uma boa hipótese de sugestão), aquela particular sombra de um dia de Verão.

Depois o olhar, o tal quadrado ou quadro que é o interior do enquadramento: como vai o fotógrafo de arquitectura "enquadrar"? O que omitirá? De que cuidados e éticas se rodeará, com a caixa aberta perscrutando o construído? Procurando o real? Revendo o real?

Só depois a "técnica", mediando ambas, pedida por ambas. E representar a Arquitectura irá exigir a ilusão de eliminar a distorção perspéctica, encontrando o non troppo herdado da composição renascentista, regressando à alvenaria plasmada em plano que o nosso olhar, educado por séculos de imagens, aprendeu a admitir. Entram as lentes ajustadas e as baterias de máquinas aqui; por vezes, ainda um pouco de photoshop, para anular um prematuro grafitti, uma mancha quase mínima ou uma sombra que só a cuidadosa observação posterior da imagem revelou.

Mostrar a arquitectura. Todos os arquitectos se julgam fotógrafos. Vítor Figueiredo especulava sobre o tema.

O que levará os arquitectos a sentirem-se tão à vontade por aí, sabendo nós que só de alguns -- poucos --, nos interessarão as fotografias?

Os arquitectos emocionam-se com a arquitectura: com a do passado, com a moderna, com a qualidade e com a originalidade do espaço, com o acerto geométrico do espaço que o espaço parecerá conter. E querem guardar essas emoções. Querem (imaginam querer), mais tarde, poder olhar o pedaço de real, recompondo mentalmente esse real. Querem copiar, transportar aquela emoção, refundi-la, eventualmente, noutros contextos, também reais.

Muitos tropeçarão, por isso, na armadilha da "objectividade". Outros divagarão sobre o olhar, propondo-nos outros olhares. A poucos sobrará a necessária paciência para, emocionados, aguardarem o acordar da manhã, o primeiro raio de sol ou então o último, a sombra longa estendida, o brilho no cerâmico, a passagem dos bandos de pássaros à hora da algazarra.

Na sua actividade solitária, privilegiarão os corredores vazios para melhor poderem, e mais à vontade, experimentar, testar, inventar o olhar.

Só quando virem passar ao longe fugaz um aluno, numa escola em férias, compreenderão então, quanto aquele vulto, subitamente, é de tal modo definitivo para a compreensão da dimensão do corredor, para o corte da luz que "rebenta" o fundo, para a inscrição da escala, face à altura do todo.

Mas a lenta artilharia técnica não se compadece com a frescura da reportagem que o arquitecto desejaria atenta, acordada e "plástica" face aos acontecimentos.

Ali, onde os acontecimentos seriam o espaço parado existente, mexido pela solene passagem do sol, no enfiado preciso com a porta-corredor-tubo, é o arquitecto-fotógrafo que, depois de tudo ajustar, emprestará ainda o seu corpo à imagem do espaço que anteviu, na ausência desse aluno que só verá do espaço a imagem mais tarde







Exclusive Interview with Fernando Guerra



Article by Tania DroggitouPosted on June 24th, 2011in Architecture, Art & FG+SG Architectural Photography



Fernando Guerra and Sérgio Guerra founded studio FG+SG - Fotografia de Arquitectura in 1999. They have been responsible in large part for disseminating contemporary Portuguese architecture over the last 10 years. Fernando Guerra photographs the architecture, while Sérgio Guerra is responsible for producing the articles and managing the atelier.

After 5 years of activity, they decided to establish "FG+SG - Livros de Imagem" publishers to promulgate the various architectural works they photograph. Their work is regularly featured in a variety of publications at both the national and international level including Casabella, Wallpaper*, Dwell, Icon, Domus, A+U, among many others. FG+SG collaborates with various Portuguese architects such as Álvaro Siza, Carlos Castanheira, Risco Arquitectos, Manuel Graça Dias + Egas José Vieira, ARX Portugal, Promontório Arquitectos, Belém Lima, in addition to international architects such as Jordi Badia, Zaha Hadid, I. M. Pei, among many others.

The website ultimasreportagens.com has become the starting point for consulting contemporary Portuguese architecture with more than three hundred online features, as well as special articles and publications.



INTERVIEW



What is architecture for you?

For many years, it became a central part of my life. Today photographing and conveying archtecture is part of my daily routine. That's what I do with Sergio, my brother and partner, who manages the studio, and with my incredible collaborative team who help me on a daily basis in diffusing the works I am asked to shoot.

Frequent human presence in your photos makes me wonder whether you want to praise the majesty of the depicted architecture or you want to point out the human substance of the building.

Human figures just happen. My process of photographing is very natural and if sometimes the images are populated by people, in others I prefer silence, emptiness. But there are no rules on how it should be. It just happens. The images are not forcibly populated. The connection with people has to do with the fact that I usually work with images on the street, preferably while travelling, which is where the human figure has always been central.For many years, architectural photography, with few exceptions, cultivated the practice of capturing images devoid of people. Fortunately, things are different today. There is nothing better than shooting pictures of normal life occurring in the course of a day, in which I am a privileged spectator following the rhythms, whether in an office or at home with a family for a day that follows its normal life in spite of my presence. This is the only kind of architectural photography I feel like doing, that which shows life occupying the space.

Which architects do you appreciate?

All those who work with architecture in the same way I work with photography : with passion and total abandon. If architecture is seen as just a nine to five job and not as a way of life, it will probably be reflected in the work and consequently in mine.

What have been your most exciting and challenging architecture photography projects?

I have already photographed over a thousand projects and it is difficult for me to highlight any specific one, because fortunately almost all have been challenging in some form or another. Of course, I've worked on projects that were more important than others, but my personal taste does not influence the outcome of the session. It is a challenge to know how to provide the same professional response in the form of beautiful images. Naturally, there are projects that are truly exciting, but good pictures can occur in any work. It's like taking pictures of a person, no matter whether you find that person pretty or ugly. With the right light, at the ideal moment, in the perfect place ... The portrait takes place. It's all a matter of waiting and knowing when to release the shutter.

What is your favorite photograph - either that you have taken, or that you have seen?

There are many images by me that I like. In fact, that is what motivates me from day to day: an endless search for the perfect image, which is sometimes almost an obsession, I confess. But I do not have a single favourite picture, I have many. Probably because I take pictures every day and regularly make new discoveries, taking new pictures that I love. But by their very nature, they are always images of the past. And on a day-to-day basis, I only think about the future. The www.ultimasreportagens.com website is my container of special images from that past. As we have almost 30,000 images online, with the number growing every day, I'm more interested in the entire body of my work, and its importance for Portuguese architecture, rather than individually frame by frame. Likewise, in relation to the work of other photographers, I am more interested in a body of work developed over the years than in a "one-hit wonder".

Do you want to mention some photographers you do admire?

The only truly special reference, at a time when all my heroes from 25 years ago produce very little or are already dead, is the American photographer for Magnum, Alex Webb. Almost all of my favorite photographs are by him and without a doubt he has influenced me most in my work. There are others that nourish me creatively but in the same proportion as new photographers appear every day. The world consisting of an elite group of photographers, as existed principally during the second half of the last century, is dissipating. Today we have incredible images taken by someone who picked up a camera some months ago which can constitute the start of a body of work that can become noteworthy. The Internet has made access to such work almost immediate and in creative terms is giving rise to an unparalleled new generation of visual artists. Easy access to cameras that can film, in addition to taking stills and access to thousands of channels of communication, is changing the rules of the game. And thankfully so, but as I've already said, successful careers are not made based on a single image or collection. The work that stands behind a career will always exist, and such work is generally not very glamorous or visible, so all is not as easy as it seems. To receive one or two "likes" on Facebook is easy on the other hand. To receive "likes" from clients in all the work you do, every day of the week, is very different. Consistency, more than just a virtue, is the main basis of a photographer's work. When you receive a commission, the clients make this clear based on your work, based the beautiful images you've created in the past. On the day of the session, only their work is important, and at that moment, you really sense that each day is, in a way, a new beginning.

What is the power of photography?

It's the power to help change the world. To enchant it, to inform it, to warn it. Despite the fact that the bombardment of images is greater today than ever before, access to photography, at the same time, has never been more trivialized, or democratized, which is good, because this new way of how we see and share the world can help us change the way we interact with it. What I do is primarily informational and it is part of this tidal wave of daily information. Individually, I do not change anyone's life. I'm aware of that limit and the relative importance of what I do. The most important thing is always the work that I have photographed. The image serves as a messenger. It's an important mission, but it never substitutes an actual visit, if possible, for that is the real experience.

Are there great buildings that do not photograph well?

There are buildings that are more easily photographed than others. Not because they are necessarily better designed, but because they seem to display themselves well, as if they knew how to work the camera as a fashion model does. And there are others, which, although beautiful, don't work as well, whether because of the surroundings, the weather or its scale. It is up to the photographer to neutralize this difference.

Do you have any do's and don'ts for architectural photography?

Many "don'ts". There are things that do not interest me to see or do in a session of architectural photography. Most of them are technical.As for the "do's", nothing is pre-defined and that is what is good about the area I work in. After questions of technique go to work unconsciously in the head of the photographer, in which it is not a matter of thinking about how to do it, but what I want to capture, the work begins to emerge naturally. The only limit in terms of quality of a successful session is the photographer. It is not a fire brigade regulation, the client's taste, or city council impositions that constrict a job. Such things can be both good as well as intimidating. There are no excuses. When I worked as an architect, my life was much more limited and frustrating due to all these factors that influenced the creative process. Now, I am the limit.

What is the most awe inspiring architecture that you have ever seen up close and personal?

When you are at a different site every day, it is good when an element of wonder occurs. As I have the good fortune of working with great architects, that feeling happens often. My first contact upon arrival at a site is little more than taking a tour around it as an architect, in which I observe the work of a colleague, and sometimes that is where the surprises begin. I'm surprised both by new people with their first project as by veteran architects. I am not interested in only working with venerated stars and I very much appreciate the fact that every day I receive new commissions from all types of studios, whether large or small, from within Portugal or without. It's an exciting time to do what I do, and no price can be put on having a different office every day.





FORA DE SÉRIE / Diário Económico Entrevista a Fernando Guerra por Ana Filipa Amaro



Arquitecto de formação, Fernando Guerra trocou a régua e o esquadro pela máquina fotográfica. Perdeu-se um arquitecto, ganhou-se um dos melhores fotógrafos de arquitectura contemporânea em Portugal. Chega de carro, que estaciona perto da Escola de Música, em Benfica. Sai meio apressado, cumprimenta a equipa da Fora de Série e fica com os olhos pregados às paredes da obra projectada por João Luís Carrilho da Graça e por ele fotografada. "A cor desapareceu, não imaginam como este amarelo era vivo...", diz Fernando Guerra, ainda meio desnorteado com a forma como o tempo castigou não só as paredes, mas também o chão e as escadas em madeira e os jardins que compõem uma outra música, esta arquitectural.Mas é por isto mesmo que o trabalho de Fernando Guerra é especial. As fotografias que tira dos trabalhos dos arquitectos são momentos que se eternizam no tempo e onde o amarelo não deixa nunca de ser "vivo". O nome e o trabalho do fotógrafo português de arquitectura são, há já alguns anos, incontornáveis. Não só em Portugal mas no resto do mundo, com provas dadas nos seus quatro cantos. Com um olhar rigoroso, cioso do detalhe, Fernando Guerra trabalha a luz como poucos, a luz que lhe dita os dias, a meteorologia com quem joga ao jogo do gato e do rato.Em conjunto com o irmão, Sérgio Guerra, Fernando leva a assinatura da empresa, FG+SG, a ser procurada por arquitectos mundiais como Zaha Hadid ou Richard Meier, e arquitectos nacionais como Álvaro Siza ou Nuno e José Mateus, do atelier ARX; a ser publicada por revistas internacionais como a "Wallpaper*"; ou a ser procurada no site ultimasreportagens.com como quem procura uma obra de arte. De arquitectura. De fotografia, claro.Tem alguma história deste lugar, a Escola de Música, para contar? É um privilégio fotografar a obra do João Luís Carrilho da Graça. Um dia, quando visitámos esta escola com um grupo de espanhóis, o João Luís confidenciou-me, preocupado, que as minhas fotografias eram tão bonitas que tinha receio que as pessoas ao visitarem a obra ficassem desiludidas. Seria impossível que isso acontecesse, dado o nível raro da obra deste arquitecto, mas foi um dos maiores elogios que podia ter ouvido.Fotografia e arquitectura. Em que medida é que estas duas artes se tocam? Para mim não só se tocam, como já se fundiram há muitos anos. Tenho dificuldade em separá-las, por isso nem tento. Mas olhando de uma forma mais distante, têm, por exemplo, em comum, o rigor com que precisam de ser feitas. Talvez esse rigor as torne áreas menos artísticas do que outras, já que existe um sentido prático ou um objectivo em cada uma delas e não seguem apenas a vontade do artista.Estudou arquitectura por gosto ou por ser uma "profissão à moda antiga"? Foi uma escolha muito natural. Desde miúdo que queria desenhar casas. Nunca pensei em fazer outra coisa. Tive influência, provavelmente, do meu pai, que é arquitecto, e o facto de ter crescido a vê-lo trabalhar no seu atelier e de o acompanhar nas viagens de trabalho que fazia.Chegou a trabalhar como arquitecto? Quando me formei, em 1993, fui para Macau para trabalhar seis meses num atelier local. O meu primeiro trabalho foi escolher as cores para os edifícios de uma nova cidade que ia crescer entre a ilha da Taipa e a de Coloane. Altamente intimidatório para começar. Acabei por lá ficar cinco anos, que passei numa rotina de trabalhos que adorava. E se, no entanto, não os fotografava, não passava um dia sem fazer fotografias na rua, sem encomendas ou objectivos especiais.O que aconteceu para mudar para a fotografia? Não existe um momento em que possa dizer que comecei apenas a fotografar. Até porque já o faço desde os 16 anos. Há 24 anos que ando com uma máquina na mão. Mas só há 11 anos, quando regressei de Macau, é que comecei com o meu irmão a propor aos principais ateliers fazer fotografias de obras. Com um mercado quase inexistente, poucas revistas e o trabalho a ser quase todo feito por um fotógrafo no Porto e outro em Lisboa, foi complicado começar. Por isso, mudámos a forma de trabalhar. Fotografava primeiro e ia ter com os ateliers depois, já com o trabalho pronto. Foi um investimento grande, muito pessoal, mas que valeu a pena. Aos poucos começámos a ter mais trabalho. E fomos crescendo. Hoje, quem começa nesta actividade faz um site e fica à espera que o telefone toque ou que o email chegue. O mercado existe. É a principal diferença.Tem um curso de fotografia ou é tudo instintivo? Nunca tirei um curso de fotografia. A fotografia tem um lado técnico que se aprende rapidamente. O mais importante na fotografia é saber ver. E isso não se ensina. Pode-se treinar e metodizar a caça das imagens, mas esse percurso deve ser pessoal. Em que medida é que a fotografia de arquitectura é especial? O que diz a quem tem tiradas do género: "andam a fotografar paredes"? Num mundo construído sobre a lógica da imagem, a fotografia de arquitectura ajuda a construir a arquitectura. O que não é pouco. É especial por ser um elemento de comunicação essêncial para o arquitecto que necessita de divulgar a sua obra e essêncial para o público que a quer ver, mas que muitas vezes não a pode visitar, quer por se tratar de uma obra privada, quer pela distância. Este tipo de fotografia não muda o mundo, como uma fotografia de um conflito pode ajudar a fazer, mas faz parte da própria arquitectura como elemento de promoção, documentação e investigação. As fotografias fornecem provas. Qualquer coisa de que se ouve falar, mas de que se duvida, parece ficar provado graças a uma fotografia. Numa das variantes da sua utilidade, uma imagem incrimina. Numa outra versão da sua utilidade, uma fotografia justifica. Mas sim, no final do dia posso dizer que passei o dia a fotografar paredes. Mas digo-o com muito orgulho. Tenta sempre nos seus trabalhos introduzir o elemento humano. Qual é a importância de o ter?Um dos motivos para não ter começado a trabalhar em fotografia de arquitectura mais cedo foi o facto de este tipo de fotografia ser tradicionalmente aborrecido, e como arquitecto sentia isso muito próximo. A fotografia de arquitectura tradicional baseou-se quase sempre em imagens despidas de gente, frias, quase clínicas. Passagens rápidas por uma obra. Sem tempo para detalhes que, muitas vezes, não só enriquecem a obra como lhe dão significado. Por outro lado, sempre fiz imagens na rua de situações que não se repetiam facilmente, fosse o passar de uma pessoa, de um gato, de uma bicicleta, de uma nuvem, ou de miúdos que brincavam. Instintivamente acabei por juntar o rigor que precisamos de ter como base na fotografia de arquitectura com o espontâneo da fotografia de rua. No entanto, não sei se tenho um estilo definitivo, até porque tento mudar a forma como fotografo todos os dias.

Como "internacionalizou" o seu nome?Além de não tirar férias há uns anos, talvez o que mais tenha ajudado tenha sido a comunicação do que fazemos ou a forma como a fazemos. Em 2003, e numa altura em que todos os sites de fotógrafos tinham uma senha para entrar nos respectivos sites, criámos o ultimasreportagens.com, que começou por ser uma pequena e despretensiosa biblioteca de arquitectura contemporânea portuguesa e que, com os anos, se tornou, de alguma forma, numa referência com quase 500 trabalhos 'online'. A internacionalização foi, como tudo o resto na FG+SG, muito gradual e nunca procurada como um fim. Aconteceu simplesmente. Há uns anos quando começaram a aparecer-me encomendas de clientes como Zaha Hadid, I.M. Pei, Jordi Badia, Richard Meier e Isay Wenfield, apercebi-me que as publicações, tanto em papel, como na Web, começavam a dar alguma visibilidade ao trabalho da FG+SG e que o retorno eram novas encomendas. Hoje em dia, passo uma parte significativa do mês fora de Portugal em reportagens diversas em que tanto fotografo uma casa familiar, um hotel de luxo ou um aeroporto. O que é bom, já que existem 365 dias de sol num ano e eu só preciso de estar no sítio certo, que nem sempre é em Portugal. Independentemente de ser em Portugal onde mais gosto de trabalhar.Qual o trabalho que marcou a sua carreira?É difícil a escolha, mas talvez destaque dois trabalhos: A casa Toló, do Alvarinho Siza Vieira, e uma obra do seu pai, Álvaro Siza, na Coreia, uma pequena galeria num jardim perto de Seul. Não só pelas imagens que correram bem, mas por me terem ajudado a chegar a muitos editores internacionais numa altura em que um envio de um email acabaria, geralmente, na caixa de 'spam'. Essa atenção permitiu-me estabelecer relações de trabalho onde não existiam. Só a casa Toló teve mais de 60 publicações nacionais e internacionais e dezenas de capas.É essencial que um fotógrafo de arquitectura seja também arquitecto? Não é condição mas, regra geral, todos os fotógrafos que conheço e que fazem este tipo de trabalho o são. Há uma predisposição para olhar para a arquitectura de uma forma mais clara e directa. É relativamente fácil como arquitecto perceber não só o projecto, mas o conceito da obra, o essencial a fotografar. Depois, só é preciso saber fotografar.O tempo, as condições meteorológicas são o pior inimigo de um fotógrafo? Para mim são. O trabalho depende tanto da obra como da meteorologia. A única coisa que pode comprometer a criatividade num trabalho é a falta de boa luz. Não há desculpas para um trabalho ficar menos bem. Não sente que pode ter passado ao lado de uma grande carreira enquanto arquitecto? Perguntam-me muitas vezes se não tenho saudades de projectar. E digo sempre que sim. Mas projectar é uma coisa e acompanhar uma obra durante uns 3 ou 4 anos é outra. Estou demasiado habituado ao facto de, passado um mês da sessão, ter mais uma obra feita em vez de ter de esperar 5 anos e passar por burocracias de regulamentos e legalizações. No entanto, não estou reformado, não me sinto de todo assim. Tem trabalhos publicados na "Wallpaper*", uma das mais famosas revistas de arquitectura. As revistas são a maior fonte de trabalho?Sempre vi as publicações mais como parceiras na comunicação do projecto de um cliente, do que como fontes de trabalho. É raro ter uma encomenda de uma revista, apesar de, curiosamente, a "Wallpaper*" ser uma das que mais me encomenda trabalhos, que vão desde fotografar um hotel em Évora ao lançamento de um novo automóvel em Espanha. Pergunta da praxe: Quem é o seu arquitecto favorito, português e estrangeiro? E o fotógrafo? Português, o arquitecto Álvaro Siza, com quem tenho o privilégio de trabalhar há alguns anos. Estrangeiro, o arquitecto brasileiro Isay Wenfield. Quanto aos fotógrafos, tenho muitas referências, mas aquele que mais influenciou a minha forma de olhar o mundo talvez seja o David Alan Harvey, um fotógrafo da Magnum.Um lugar "arquitectónicamente" especial.A minha casa, porque, provavelmente, é onde passo menos tempo do que gostaria. Fica perto de Lisboa e é um projecto meu, mas nunca a fotografei. E provavelmente não o vou fazer. Talvez não precise. Está sempre ali...Portugal é um lugar fácil para se trabalhar fotografia de arquitectura? Portugal é não só um lugar fácil como um dos melhores. Não só temos uma arquitectura única e internacionalmente reconhecida, como o país se atravessa de uma ponta à outra em poucas horas.O que lhe dá mais "gozo" fotografar?Tanta coisa! O dia-a-dia já me dá imenso gozo registar. Mesmo que não esteja a fotografar comercialmente, até uma ida para o atelier pode servir para um registo qualquer que me dê prazer. E, claro, as viagens, as reportagens que saem da minha rotina arquitectónica, como os trabalhos que faço de moda para o meu amigo José António Tenente, ou, simplesmente, fotografar as minhas filhas, tudo sabe bem para depois regressar às fotografias de casas.Quando deixa a máquina fotográfica em casa?Nunca consigo deixar a máquina em casa. Nem mesmo quando vou às compras mais banais. Já faz parte de mim. Mesmo que nunca a use, está ali comigo.Está com algum projecto em mãos?Várias monografias sobre arquitectos portugueses, novas edições limitadas de fotografias e muitas viagens para novos trabalhos. É um desafio, mas é essencial não parar de pensar e reinventarmo-nos para sobreviver. Ninguém vive da fama nesta área. Todos os dias são uma prova nova, onde os "êxitos" passados nada adiantam nessa sessão. Superá-la é a única resposta possível.





FOTOGRAFIA DE ARQUITECTURA, DEFEITO E FEITIO

PEDRO BANDEIRA

2008-06-17




A propósito das exposições Em Obra de Luís Ferreira Alves e Mundo Perfeito de Fernando Guerra. No dia 28 de Abril de 2008, por volta das 18 horas, inaugurou na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto a exposição Mundo Perfeito do fotógrafo de arquitectura Fernando Guerra (1970). À mesma hora, na mesma cidade, inaugurou na sede do Jornal de Notícias a exposição Princípio e Fim de Um Projecto com fotografias de Luís Ferreira Alves (1938) sobre a obra de Eduardo Souto de Moura. Na semana seguinte, Ferreira Alves inaugurou no Departamento de Arquitectura da Universidade do Minho, Guimarães, a exposição Em Obra comissariada por mim e acompanhada de um texto da minha autoria intitulado “Mundo Imperfeito” (1). Serve esta breve introdução para prevenir alguma parcialidade que possa emergir nas linhas que abaixo se seguem. A coincidência da inauguração quase simultânea de três exposições estimulou um debate, ainda que informal, capaz de enfatizar o antagonismo entre: uma cultura analógica e uma cultura digital; entre o propósito condicionado da fotografia documental de arquitectura e a igual legitimidade de uma fotografia interpretativa; ou ainda, entre uma imagem utópica da arquitectura (o mundo perfeito) e uma realidade plena de ruído e imprecauções (mundo imperfeito). Dicotomias à parte (há cores entre o preto e o branco), convém também lembrar que Luís Ferreira Alves e Fernando Guerra partilham uma mesma condição – a do fotógrafo dito de “encomenda”, com clientes específicos e compromissos comerciais. 1. Mundo Perfeito É sabido que a exposição Mundo Perfeito de Fernando Guerra na Faculdade de Arquitectura do Porto causou um certo mal-estar acentuado pela publicação do catálogo com o mesmo nome sob a chancela das Publicações FAUP (2). Esta inquietação que muito provavelmente parte de alguns equívocos, não deixará de expressar um certo cepticismo em relação ao que as imagens de Fernando Guerra possam representar: a excessiva mediatização da arquitectura através da sua imagem fotográfica. Para muitos arquitectos, e em especial para os herdeiros de uma Escola do Porto, a imagem fotográfica raramente faz justiça aos edifícios que projectam e idolatram e, algo paradoxalmente, mais raramente denunciam os defeitos das obras que desadoram. Inadvertidamente ou não, as imagens estetizam o inestético. As fotografias não são simplesmente fiáveis, porque omitem, porque alteram, porque adicionam. Por outro lado, a cultura de “resistência” que sempre caracterizou a arquitectura do Porto exige a manutenção de uma certa marginalidade em relação a uma sedução fácil baseada na superficialidade das imagens, mas também em relação aos fenómenos de mediatização tomados por modas e tendências. Isto pode parecer contraditório sabendo de que arquitectos falamos. Mas podem verificar que mesmo Álvaro Siza ou Souto de Moura sempre tiveram o pudor de não ter sequer uma página oficial na internet que publicite o seu trabalho. Poder-me-ão dizer que não precisam, é verdade, mas comparativamente ao star system são de facto excepção. Se, por um lado, há uma delegação dessa responsabilidade na iniciativa de outros, por outro lado, há uma certa convicção de que as obras (necessariamente construídas, materializadas) terão que falar por si mesmas numa escala de um para um. Depois, há a relação da Escola do Porto com o desenho, com o esquisso, com o “processo”. Durante décadas, o desenho era tido como imprescindível para pensar arquitectura, reivindicando a relação mais curta entre ideia e obra. Além disso, perseguindo uma tradição beaux-arts, é no esquisso que se afirma a autoria do arquitecto (que raramente dispensa assinar e datar os seus desenhos para a posteridade). Por tradição, a fotografia é vista como algo impessoal, que raramente entra no processo de concepção do projecto e que só emerge verdadeiramente no fim, assumidamente pela lente de outros: “acabada a assistência técnica, a obra permanece ali exposta para o cliente desfrutar, é então altura de chamar o fotógrafo para ver e confirmar” (3). É a relação de desconfiança em relação à fotografia que os arquitectos procuraram esbater estabelecendo relações de confiança com os fotógrafos. Foi assim com os arquitectos modernistas (Mies van der Rhoe com a dupla Hedrich-Blessing; Richard Neutra com Julius Schulman; Le Corbusier com Lucien Hervé…), foi assim com Fernando Távora, Álvaro Siza e Souto de Moura com Luís Ferreira Alves. E depressa a desconfiança dá lugar à amizade: “segue-se geralmente um almoço em que falamos de tudo, das fotografias, da arquitectura, sem cerimónias, frases contundentes que só a amizade consegue segurar e continuar” (4). Nesta relação de proximidade entre arquitecto e fotógrafo, este último tende a tornar-se invisível: “o fotógrafo modernista abdica de qualquer protagonismo para dar visibilidade à arquitectura e, não menos importante, às pretensões discursivas do arquitecto. Este sentido de “encomenda” tornaram durante décadas invisíveis fotógrafos como Schulman ou Ezra Stoller que viam as suas imagens serem publicadas sem reconhecimento de créditos fotográficos. Esta humildade assentava na ideia de que «uma boa fotografia de arquitectura depende (necessariamente) de uma boa arquitectura» (5), o que hoje sabemos ser falso” (6). Uma coisa é certa, essa invisibilidade autoral do fotógrafo abriu caminho para a imagem propagandística ou, no mínimo, acrítica. E, neste sentido, a tão discutida “objectividade” fotográfica não passa de um (pre)conceito formal e estético. A fotografia comercial de arquitectura, dependente do cliente-arquitecto, fundou-se sobre este pressuposto de uma fotografia acrítica. Como refere Fernando Guerra, os seus trabalhos são “sempre uma encomenda, uma prestação de serviço” (7). Neste sentido, Guerra terá em primeiro lugar que agradar aos seus clientes, tentando, simultaneamente, impor uma marca própria, autoral, que eleve o seu trabalho fotográfico a uma condição “artística” (a exposição e catálogo da FAUP foi um passo importante para essa legitimação). Sob esta condição “artística”, e aproximando-se da “nova” fotografia de arquitectura que se vai encomendando lá for a (8), a fotografia não poderá ser um humilde documento fotográfico (como parece defender Ferreira Alves) mas antes “uma mensagem sempre pessoal que pode por vezes ser ficcionada ou quase romanceada” (9) (sendo que este “quase” é paradoxal pelo compromisso comercial que representa). A procura de Guerra do “momento decisivo”, numa clara referência a Cartier-Bresson, exprime essa vontade de produzir uma imagem que ultrapasse a suposta banalidade e realismo do documento fotográfico mais convencional (onde também se insere a fotografia que os arquitectos fazem para registar as suas próprias obras, sem grandes pretensões, ou intenção de virem a ser publicadas). A ambição “artística” de Fernando Guerra está bem patente no conjunto das suas imagens que, se por um lado exprimem a personalização de um “modo de ver” (caracterizado, por exemplo, pela presença encenada de vultos e sombras ou pelo dramatismo “pós-fotográfico” de alguns céus – uma encenação que entrará algo em contradição com a ideia de “momento decisivo”), por outro lado, essa mesma personalização ou “estilo” tenderá, perversamente, a homogeneizar também o modo como vemos o “estilo” das diferentes arquitecturas: “entre os edifícios que fotografa, não se percebe, exactamente, um juízo de valor sobre os conteúdos da arquitectura; antes um controlo, ao nível das emoções, que busca homogeneizar todos os registos (…) filtrar todos os projectos pela mesma rede, reduzindo-lhes a espessura própria que os distancia” (10). No seu conjunto, na sua visão “quase romanceada”, o trabalho de Fernando Guerra aproxima-se, perigosamente, da construção fotográfica de uma «arquitectura genérica», para usar o termo de Rem Koolhaas. Este será o motivo mais do que suficiente para que os poucos arquitectos ainda comprometidos com um sentido de «arquitectura de autor» abdiquem dos serviços do «autor» Fernando Guerra (teoria dos dois galos na mesma capoeira?). A julgar pelo número de encomendas, pelo número de visitas ao site ultimasreportagens.com, serão poucos os arquitectos a resistir à sedução das imagens de Fernando Guerra que, melhor que ninguém em Portugal, soube compreender “o poder da massificação e da celeridade do consumo mediático” e compreender “ a imagem como instrumento insubstituível da difusão cultural” (11). Inteligentemente usando a arquitectura de Siza como “isco” (12), conquistou uma atenção rara dos arquitectos, estudantes de arquitectura e, não menos importante, das publicações da especialidade. Fernando Guerra parece ter hoje em dia o monopólio das imagens da arquitectura portuguesa criando uma relação de dependência entre arquitectos e editores que não querem ficar de fora do jogo da mediatização. Os arquitectos não só procuram os seus serviços pelas imagens, mas por aquilo que elas potenciam em termos de divulgação e reconhecimento. Dir-se-ia que se não foi fotografado por FG+SG é porque não existe (13). Este incómodo é partilhado por muitos e só aqueles arquitectos suficientemente convictos daquilo que fazem (e para quem, de facto, fazem) verdadeiramente ignoram. No mesmo plano do papel ao da página web, boas ou más arquitecturas (tanto faz) partilham o mesmo glamour da obra elevada à sua condição mediática. Poderá ser por um período efémero (será certamente para a grande maioria), mas esse breve momento de celebração e 15 minutos de fama representará todo o investimento do arquitecto, aparentemente crente num “mundo perfeito” – a metáfora ideal para descrever o tempo que muitos veneram demarcado com rigor entre a conclusão da obra e a consequente entrada do cliente. E o preço a pagar: vultos e sombras, como fantasmas, que habitam casas vazias, sem móveis, sem livros, sem saber por onde ir, circulam de imagem em imagem sem encontrarem um lugar para apropriar e viver. 2. Mundo Imperfeito O tema da exposição Em Obra de Luís Ferreira Alves está nas antípodas do “mundo perfeito”, por isso o subtítulo “mundo imperfeito”. Com isto não se quis expressar qualquer antagonismo entre a prática profissional de Luís Ferreira Alves e Fernando Guerra (como já se referiu, Luís Ferreira Alves é também um fotógrafo do “mundo perfeito” encomendado pelos arquitectos (14)) mas antes a oposição entre a sedução da arquitectura acabada de inaugurar e o caos ou desleixo que caracterizam arquitectura em obra ou em ruína – procurando-se aqui uma indistinção assustadora simbolicamente representada pelo “princípio” e “fim” da arquitectura. Sobre esta exposição escrevi: “Na exposição Em Obra, Luís Ferreira Alves oferece-nos uma reflexão sobre a arquitectura em fase de construção, ou reconstrução, o que explicará o título da amostra. Um grupo de imagens do Palácio do Freixo (reconstrução da autoria do arquitecto Fernando Távora e José Bernardo Távora) exibe sem pudor um património despido, decadente, à espera de atenção. Num primeiro olhar, estas imagens poderiam significar a denúncia de um tempo que menosprezou toda a dignidade da arquitectura, falamos de um património decadente, disfuncional, que não lhe foi sequer oferecida a possibilidade estética e romântica de se apresentar como “ruína”. Num segundo olhar, estas imagens de uma qualidade estética em si inquestionável, estimulam uma abordagem capaz de exaltar uma beleza oculta mas pronta a emergir. Em Obra é por isso uma mensagem de esperança a partir das imagens que se recusam a ser auto referentes (serem forma sem conteúdo) para ser cúmplices de um momento único de transição e expectativa. Mas há outro nível de cumplicidade entre as imagens e a obra. No que refere à especificidade das imagens do Palácio do Freixo, do Mosteiro de Tibães ou do Liceu de Braga, Luís Ferreira Alves oferece-nos a visão de um património “humanizado”, isto é, um património fragilizado na sua essência mas paradoxalmente próximo de uma condição existencialista e algo absurda. Pormenores de frescos apagados, objectos estranhos à obra, estruturas expostas, entulho, lixo são imagens que perfazem uma ideia de desmistificação do património tornando-o perversamente mais próximo e quotidiano. Mas, paradoxalmente, será isto que legitimará repensar o património como lugar aberto a novos olhares e intervenções; um património dinâmico em transformação. Todas estas imagens de Em Obra fixam em papel um momento de transformação entre a ruína e a obra terminada. Há um qualquer fascínio inerente a este momento de transição do qual os arquitectos não abdicam, há a exposição de algo que o tempo tornará invisível, mas que não se pretende esquecer. Mas mais do que documentar este momento há também uma oportunidade de explorar outros sentidos estéticos. Lembro a este propósito as fotografias de Lewis Baltz, da sua série Park City (1980) ou mais recentemente o trabalho desenvolvido por Candida Höfer sobre a Embaixada Holandesa em Berlim projectada por Rem Koolhaas. Neste último caso, imagens da Embaixada ainda em obra foram editadas num livro (15) que parece querer enfatizar uma estética que é também arquitectónica e coerente com o sentido de transitoriedade que Rem Koolhaas tem vindo a reclamar para a arquitectura (16). São fotografias como estas de Luís Ferreira Alves que permitem aceitar a incomodidade provocada pelas obras de modo absolutamente tranquilo. De certa maneira, estas imagens vão mais longe, ao desvendar uma beleza oculta onde à partida não há nada de belo, estão a contribuir para uma domesticação de um cenário que apesar de efémero tem cada vez mais impacto. Uma obra acaba e logo outra começa, há transitoriedade mas também há permanência das obras, há o incómodo mas também há expectativa de que: “Portugal é bom quando estiver acabado” (17), até lá estas imagens representam a bondade possível. Durante séculos o nosso património arquitectónico era, para o bem e para o mal, entendido como um organismo vivo potencialmente sujeito a transformações. De certo modo, o próprio reconhecimento de valor patrimonial expressava essa acumulação de intervenções que espelham a riqueza e complexidade histórica. Hoje, as políticas de preservação patrimonial têm quase sempre como consequência uma estagnação arquitectónica (dificilmente imaginamos Álvaro Siza ter a encomenda que Nasoni teve na Sé do Porto). As imagens de Luís Ferreira Alves devolvem-nos, nem que seja ilusoriamente, esse sentido de um património dinâmico em suposta transformação, mas oferecem-nos mais do que isso, estas imagens não deixarão de evocar um sentido que quase nos levará a confundir a transitoriedade das obras com a eternidade da ruína, fundindo o início e o fim da arquitectura”. 3. Mundo digital A maior parte das fotografias da exposição Em Obra são ampliações de película médio formato 6x7. Mas a revelação química tem um tempo próprio cada vez mais incompatível com as expectativas da “encomenda”. Os profissionais da fotografia foram passo a passo cedendo ao digital que tecnicamente, a cada dia que passa, acumula pontos de qualidade. Ainda assim, Ferreira Alves, que hoje fotografa arquitectura com uma câmara digital Canon EOS-1DS Mark 3 (topo de gama) lamenta-se da qualidade dos céus e das impressões. Fotografar em película, fotografar com médio e grande formato é uma garantia de qualidade mas que implica uma disciplina e rigor difíceis de serem monetariamente reconhecidas pelo mercado. Fotógrafos como João Armando Ribeiro ou Luís Oliveira Santos (que já tiveram encomendas de arquitectos como Gonçalo Byrne, José Paulo dos Santos ou ARX Portugal) quando trabalham com a fotografia analógica fazem com sorte 10 imagens por dia, depois esperam pela revelação dos laboratórios que só existem no Porto ou Lisboa. Paulo Catrica (fotógrafo também do médio e grande formato) costuma ironizar, sem estar muito longe da verdade, que só para montar o tripé demora duas horas. Quem trabalha com digital sabe que pode fazer 100 fotografias num único dia sem que isso tenha qualquer custo acrescido (não há película, não há laboratório), além de poder verificar o resultado na própria obra (e raramente ter de voltar) e saber que quando estiver novamente em estúdio terá uma segunda oportunidade denominada Photoshop que servirá para reenquadrar, corrigir perspectivas, manipular cores, adicionar ou retirar informação, etc. Claro que este tratamento pós-fotográfico também se pode fazer a partir da película digitalizada, mas há uma “cultura do analógico”, uma cultura “resistente”, que o desaconselha. Só quem já passou pela revelação e ampliação dos próprios negativos saberá do que estou a falar. Não se entenda isto como um juízo contra a facilidade da manipulação digital. A manipulação sempre existiu desde a invenção da fotografia, entenda-se antes que a cultura do analógico valoriza com mais expressão o próprio «acto de fotografar» do que do processo «pós-fotográfico», quanto mais não seja porque os custos da película e da sua revelação nos obrigam a ser mais selectivos com as imagens que fazemos. O digital facilita a displicência do disparo que se tenta compensar quantitativamente. Neste aspecto, o digital é incontinente, é difuso, mas simultaneamente apresenta-nos a possibilidade de uma arquitectura que não conhece limites para chegar à perfeição. A fotografia analógica, condicionada à partida, teve de aprender a viver com os seus erros, com o seu ruído, com o seu próprio envelhecimento. Presta-se então à metáfora de uma arquitectura envolta de patine ou solitária como uma ruína. A mim seduzem-me todas as imagens que exprimem na arquitectura uma essência entre aquilo que se deseja e tudo o resto a que estamos verdadeiramente condenados. Pedro Bandeira Arquitecto, docente no Departamento de Arquitectura da Universidade do Minho (DAAUM), autor da tese de doutoramento “Arquitectura como Imagem: Obra como Representação” (DAAUM: 2007) NOTAS (1) Pedro Bandeira, “Mundo Imperfeito” in cartaz da exposição Em Obra, Guimarães: DAAUM, 2008. (2) Poder-se-á dizer que a edição do catálogo “Mundo Perfeito” provocou um debate interno sobre a política editorial da FAUP. (3) Eduardo Souto de Moura, “Princípio e Fim do Projecto” in catálogo da exposição com o mesmo nome, Porto: Jornal de Noticias, 2008, p. 3. (4) Eduardo Souto de Moura, idem. (5) Ezra Stoller: Modern Architecture Photographs by Ezra Stoller. New York: Harry N. Abrams, Inc. Publishers, 1990, p. 6. (6) Pedro Bandeira, idem. (7) Fernando Guerra, “Dibujos Visuais” in revista Mais Arquitectura #22, Março 2008, p. 27 (8) Ver, a título de exemplo, o trabalho desenvolvido pelo fotógrafo-artista Thomas Ruff sobre a obra de Mies van der Rohe ou de Herzog & de Meuron, em que a fotografia é assumidamente interpretativa e reconhecida como prática autónoma. (9) Fernado Guerra, idem, p. 29. (10) Ana Vaz Milheiro, “Mundo Perfeito” in Mundo Perfeito: Fotografia de Fernando Guerra. Porto: Publicações FAUP, 2008, p. 21. (11) Nuno Grande, “Foto-Síntese” in Mundo Perfeito: Fotografia de Fernando Guerra. Porto: Publicações FAUP, 2008, p. 14. (12) O destaque que Álvaro Siza tem no site Últimas Reportagens ou no catálogo Mundo Perfeito exprime uma inteligente política de marketing. Isto não significa que Álvaro Siza tenha contratado os serviços de Guerra. Cada vez mais os fotógrafos profissionais de arquitectura são freelancer que contratam directamente com editoras ou revistas da especialidade. É também usual que estes fotógrafos ofereçam gratuitamente portfolios de obras a arquitectos de renome na expectativa de virem a ser posteriormente recomendados. (13) Aproveitando a citação de Castello-Lopes “para a maioria das pessoas o que não foi fotografado de certa forma não existe, ou existe menos” citado por Fernando Guerra, idem, p. 33. (14) O percurso de Luís Ferreira Alves enquanto fotógrafo “oficial” dos arquitectos da Escola do Porto estará, do ponto de vista estético, distante das imagens de Fernando Guerra, mas não deixará de partilhar a mesma vontade na comunicação de um mundo “perfeito”. (15) François Chaslin e Candida Höfer, The Dutch Embassy in Berlin By OMA Rem Koolhaas. Rotterdam: NAi Publishers, 2004. (16) Para desenvolvimento deste tema consultar Pedro Bandeira: “Imagens de Rem Koolhaas” in Arquitectura como Imagem. http://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/6878 - www.tinyurl.com/5sc9j3 (17) Como ironizavam Jorge Figueira e Luís Tavares Pereira na Revista Unidade #3, 1992.

sites de interesse


http://ultimasreportagens.com/


http://www.photo.joaomorgado.com/


http://www.imagensubliminal.com/


http://www.miguelcoelho.com/


http://www.edgarmartins.com/


http://www.rolandhalbe.com/en/gallery/index.asp


http://artephotographica.blogspot.com/2008_11_01_archive.html


http://www.cotianet.com.br/photo/hist/indice.htm


Tema Espetacular, Lda.. Com tecnologia do Blogger.